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Sobre o Ciências Moleculares

Este texto é uma mistura de alguns emails e mensagens que eu juntei ao longo do tempo respondendo perguntas sobre o Curso de Ciências Moleculares, a graduação que eu cursei na USP. Vale lembrar que eu terminei a graduação em 2013, e desde lá muita coisa mudou e eu não acompanhei. Mas vamos lá:

Como você ficou sabendo do curso? E porque se interessou em seguir essa carreira?

Eu sempre gostei de ciência, e na época do vestibular estava entre física e computação, e pensava também em fazer graduação em Ciências Físicas e Biomoleculares, da USP São Carlos. Uma amiga minha mencionou um tal de Ciências Moleculares, e eu insisti que não era esse o nome, que o curso na verdade chamava Ciências Biomoleculares… até descobrir que ela estava falando de um curso diferente: um bacharel em ciências da natureza, exatas e biológicas, em que você só se especializa mais pro final. Na hora já adorei a ideia. Mesmo antes do vestibular, eu já tinha decidido que era isso o que eu queria.

Qual era seu curso de origem?

Eu entrei através da Física Computacional da USP de São Carlos. Passei 6 meses lá, e fui direto pro CCM.

Como funciona o processo seletivo do curso? E qual seria uma razão para que o aluno seja retirado do CCM e volte par ao curso de origem?

O processo seletivo, até onde eu sei (afinal, essas coisas mudam), consiste com questões de matemática/física/química/biologia e inglês, seguido de uma entrevista. As questões são do mesmo nível do vestibular, que é pra não excluir ninguém que venha de cursos de ciências humanas, artes ou sociais. É mais pra garantir que todo mundo que entra lembra o que é um gene, ou que existem leis de Newton, e tal.

Já a entrevista depois da prova é feita como uma dinâmica de grupo. Os professores ficam circulando entre os alunos, e apresentam perguntas pra ver se você sabe trabalhar em grupo e pensar de maneira científica. São perguntas do tipo “por que geleia não estraga?”, “por que gelo boia na água?” ou “se antibióticos matam bactérias, porque é que a gente não coloca antibióticos na água e pronto?” – para responder isso, o aluno tem que pensar em evolução, seleção natural, pensar que uma hora as poucas bactérias na água que tiverem alguma resistência ao antibiótico devem se proliferar, etc. A ideia não é ver quem sabe mais, mas sim ver se o aluno sabe formular hipóteses e explicar coisas de maneira científica.

O regresso ao curso de origem acontece de duas maneiras: ou o aluno se forma no CCM e tem a opção de terminar a graduação interrompida, saindo assim com dois diplomas, ou o aluno é mandado de volta por falta de desempenho acadêmico. Eu falo mais disso numa resposta seguinte, mas em ambos os casos a vaga no curso de origem fica garantida durante a duração da graduação no CCM.

Por que cursar Ciências Moleculares?

Sinceramente, dependendo do que você quer, o CCM é a melhor opção que eu conheço no Brasil, por uma série de razões:

O curso é projetado pra quem gosta de exatas e biológicas, não sabe direito o que quer fazer da vida, mas tem interesse em fazer pesquisa. Ele forma cientistas com uma base forte interdisciplinar que podem atuar a princípio em qualquer área que tenha pelo menos um pouco a ver com as disciplinas centrais do curso. Na prática, volta e meia alguém vai trabalhar em algo não-acadêmico (consultoria, jornalismo, start-ups), mas ainda assim a direção padrão é a pesquisa, no Brasil ou fora dele.

O primeiro perfil de pessoa pra quem eu recomendaria o curso é aquela que gosta de várias áreas da ciência e não tem certeza do que quer fazer na vida. Você não precisa ser super fã de todas as matérias, basta estar aberta e disposta a estudar. Toda turma tem alguém que parece ir bem em todas as matérias sem muito esforço (afinal, todo curso tem gente asim), mas a maioria da turma costuma ter dificuldade em alguma matéria ao longo do curso. Tem gente que é uma negação pra exatas, tem gente que não entende bioquímica, etc. No começo a turma é naturalmente bem desbalanceada (quem veio da Física sabe física, quem veio da Biologia sabe biologia, etc), mas em em pouco tempo fica todo mundo no mesmo barco, sobrevivendo à base do trabalho em equipe.

O curso é puxado, mas se você tiver a mistura certa de paciência e determinação dá pra concluir tranquilamente. E isso inclui gente que vem dos mais diversos cursos de graduação: quando eu estava na graduação, estudei com gente que veio da Letras, da Arquitetura, da Gestão de Políticas Públicas, e que foi pro Ciclo Avançado fazendo pesquisas super interdisciplinares, com vários inclusive fazendo pesquisa no exterior.

De novo: depende do que você quer pra sua vida. O segundo tipo de pessoa pra quem eu recomendaria isso seria o caso de um amigo meu – ele veio do Instituto de Física, fez 2 anos de Ciclo Básico e voltou pra fazer o Ciclo Avançado na Física. Depois disso ele foi trabalhar num laboratório de “física do corpo humano”, estudando o sistema circulatório como se fosse um sistema elétrico, estudando os paralelos entre correntes elétricas e a corrente sanguínea. Ele já sabia que queria voltar pra Física, só não sabia onde, mas sabia que queria ter uma base interdisciplinar, coisa que ele não teria se ficasse na graduação em Física. Além do mais, considerando que você pode se formar no CM ainda com a sua vaga no curso de origem garantida, não raro alguém estuda no Ciclo Avançado algo diferente do que estudaria no curso original, e depois volta e termina o curso. Esse meu amigo pegou várias matérias da física, e depois se formou em menos tempo, mas tem uma infinidade de histórias diferentes, com gente que faz seu Ciclo Avançado em Inteligência Artificial na matemática e depois volta pra engenharia, gente que estuda a biofísica das teias de aranha na engenharia e na química e depois volta pra biologia, e por aí vai. É comum a pessoa até saber pra onde quer ir, mas querer aprender algo diferente no meio do caminho. E por fim, tem bastante gente que muda completamente de direção, e tá tudo bem também. O CM abriga ex-biólogos que viraram cientistas da computação teóricos, e ex-cientistas da computação que se apaixonaram por ecologia. Tem realmente de tudo.

Eu só não recomendaria o CM se você não tá disposto a estudar algo diferente, e já sabe o que quer da vida. Algo do tipo “eu sou da química, eu quero química, química química química”. Nesse caso, ora bolas, vai estudar química e ser feliz!

Como é a rotina de um estudante de Ciências Moleculares? Tem algum foco específico (amigos comentaram sobre se dedicado exclusivamente à pesquisa, diferente dos outros cursos de ciências duras. É verdade?)

Os primeiros dois anos são de muita aula, com uma base forte em matemática, biologia, física, química e computação, no que é chamado de Ciclo Básico. Claro que o “forte” depende um pouco do professor, mas são dois anos bem pesados, e espera-se que você não faça nada como pesquisa ou estágio nesses dois anos, só aula. E nesse ponto é bem parecido com o começo de outros cursos de graduação com uma grade curricular pesada: matéria, prova, etc, e você não tem nenhuma escolha de matérias até o final do segundo ano. Os alunos cursam todas as matérias juntos, o que faz a classe passar muito tempo junta. Eu costumo brincar que a sua turma no CCM é a sua família: podem ser os seus melhores amigos, pode ser gente que não se dá bem, mas você não tem opção a não ser aturar esse povo todo dia (incuindo os finais de semana estudando).

No terceiro e quarto ano, o Ciclo Avançado, muda tudo: você se junta ao grupo de pesquisa de algum professor na USP ou fora dela, e além de fazer pesquisa você monta um currículo na direção de seu interesse, cursando disciplinas em qualquer instituto da universidade, sem precisar dos pré-requisitos daquele curso. Tem gente que sai então meio biólogo, ou meio matemático, meio neurocientista.. a ideia é que na segunda metade você pode completamente personalizar a sua graduação, desde que seja dentro das ciências duras como você falou. Tem gente que sai estudando antropologia e gente que sai estudando teoria das cordas. Essa é a parte que tem mais potencial de ser divertida. Aí é claro que a turma se espalha, vai cada um estudar a área de interesse. A única “disciplina obrigatória” é uma disciplina de iniciação à pesquisa. No final do semestre, você escreve um relatório e o seu orientador te dá uma nota, como se fosse qualquer outra disciplina. O objetivo, afinal, é formar alguém que possa ser um pesquisador na área que escolheu.

O curso tem fama de ser bastante em fechado em si mesmo. Porque você acha que isso acontece?

Nos dois primeiros anos os alunos do CCM não têm aulas com mais ninguém. Por exemplo, vários cursos na USP têm aula de Física 1, mas os alunos do CCM têm a Física 1 do CCM, com vagas só pra eles. Na verdade muitos cursos têm também suas matérias específicas (duvido que alguém além da Veterinária vá estudar obstetrícia de bovinos, por exemplo), mas tanto pelo fato do CCM ter dois anos de aulas assim fechadas, quanto pelo fato dele não pertencer a nenhum instituto com outros cursos de graduação, o curso acaba criando sua própria bolhinha social. Novamente, na minha opinião, não é o único lugar em que isso acontece: graduações como medicina e direito são bem isoladas também. A diferença é que o CCM é mais desconhecido, então tem gente que pensa que é uma seita secreta, ou coisa do gênero. Quem dera.

O curso é ligado a algum instituto ou departamento? Existe uma grade fixa com professores específicos do curso ou são todos de outras áreas?

O curso (até onde eu sei) é ligado diretamente à pró-reitoria de graduação, sem ligação com nenhum outro instituto. Não existem professores pertencentes ao CCM, nem nada assim: todo professor ali pertence a algum instituto, e também dá aulas no CCM. O curso só oferece as disciplinas do Ciclo Básico, e essas são fixas, umas com um rol meio flutuante de professores, outras já associadas a um ou outro professor, de forma bem parecida com outros cursos na universidade. Já as disciplinas no Ciclo Avançado, como eu falei, são em qualquer instituto da universidade, da filosofia à medicina.

Como você enxerga a questão do curso não estar disponível para o vestibulando e só quem já é aluno da USP poder ingressar? É um tipo de busca do melhor entre os melhores?

É um tipo de busca do melhor entre os melhores. O CCM, até onde eu o entendo, pretende passar essa imagem de um curso de elite que dá mais liberdade para os alunos, e que por isso só aceita os mais esforçados. Daí a pré-seleção pelo vestibular da USP. Eles até mandam cartas convidando os alunos com melhor performance no vestibular e tal. Mas vale lembrar que essas cartinhas são só um convite informal: todo aluno de graduação da USP pode fazer a prova para entrar no CM, em qualquer ponto da sua graduação.

Essa imagem de curso de elite também se reflete nos alunos que são mandados de volta pros seus cursos de origem quando “não atingem o desempenho acadêmico desejado” – ou seja, quando não passam em alguma matéria. Quando isso acontece a comissão coordenadora do curso avalia o caso, e normalmente retorna o aluno ao curso de origem. Como (ex-)representante discente, essa era a parte que mais me doía, porque muitas vezes esses eram alunos realmente dedicados, mas que de fato não tinham tirado nota suficiente. Essa é uma parte dura do curso.

Você achou um bom curso para ter feito? Hoje em dia, qual sua profissão?

Sem dúvida, e faria de novo se tivesse que escolher novamente. Houve partes difíceis, amigos meus que não tiraram nota suficiente pra passar de semestre, e a eterna crise de identidade de não ser nem físico nem biólogo nem nenhuma dessas alternativas… mas honestamente essa é a minha maior vantagem profissional hoje. Saindo do CM, eu ingressei em um doutorado na Universidade de Oxford, usando de praticamente todas as áreas do Ciclo Básico do CCM, e mesmo numa universidade famosa e tradicional como Oxford é raro encontrar gente ingressando num doutorado que já tenha estudado uma combinação tão diversa de disciplinas como mecânica quântica, imunologia e computação paralela. É óbvio que eu não estudei tanta biologia quanto um biólogo ou tanta matemática quanto um matemático – eu não vou lembrar todos os componentes de uma via metabólica, nem lembro de cor como resolver uma equação diferencial parcial – mas eu sei pular de uma área pra outra com facilidade, porque é nisso que eu fui treinado. O CCM busca treinar pesquisadores que possam firmar pontes entre diferentes áreas. E é isso o que eu fui fazer depois do doutorado: eu ingressei como posdoc num departamento de ciências sociais, o Oxford Internet Institute, para desenvolver novos métodos usando do que eu aprendi de modelagem matemática e computacional de sistemas biológicos. E como de se esperar, dentre todos os meus colegas, eu sou o único que consegue dialogar com tantas áreas!

Quais são os pontos negativos do curso?

Bom, você obviamente sai sabendo menos química que um químico, menos física que um físico e etc, mas isso não é exatamente um ponto negativo. Vamos aos pontos negativos.

Uma coisa que às vezes incomodava é que professores (em geral professores novos no curso) não sabem que a gente é da graduação. Alguns vezes até sabem, mas acham que a gente é algum tipo de aluno superinteligente. Na minha turma, na primeira semana de aula o professor de química orgânica perguntou se a gente já tinha estudado mecânica quântica (resposta: NÃO, ESSA ERA A PRIMEIRA SEMANA DE AULA). A única coisa que eu diria que é verdade é que o CM costuma selecionar turmas bastante interessadas em aprender: lembro de uma aula em que a minha turma chegou a fazer praticamente 4h de perguntas ininterruptas, basicamente porque a gente estava muito curioso a respeito da matéria e queria aprender. É isso. E esses exageros de professores acontecem, mas é só questão de conversar com o professor.

Outro ponto bem chato que eu mencionei acima: o jubilamento. O curso espera “bom desempenho acadêmico”, e por isso eles querem dizer “não reprove nenhuma matéria”. Se você passa em tudo com uma nota 5 ou 6 (de 10), como a nota de corte para passar é 5, a consequência é um puxão de orelha e nada mais, mas do momento em que você reprova em uma matéria, aí a comissão coordenadora do curso decide avaliar a sua performance nas outras matérias. Se você foi bem em mais ou menos tudo, e tirou um 4.5 em alguma matéria, pode ser que não aconteça nada – e novamente, puxão de orelha. Mas se você tira uma nota 3, ou menor… bom, com um pouco de choro, pode ter uma prova substitutiva ou recuperação, e a permanência do aluno no curso fica dependente daquilo. Se você tira uma nota baixa assim em duas ou três matérias (de um total de cinco), aí a chance é boa de você ser jubilado. Ou seja, você é enviado volta pro seu curso de origem, do ponto onde parou. É bem chato, mas acontece. Quando é com gente que já está desmotivada, e que portanto não liga muito de voltar pro curso de origem, menos mal. Dói mais quando é alguém que queria passar. Por isso é como eu falei: você não precisa amar todas as matérias, só precisa passar nelas. E pra isso a gente se apoia demais nos coleguinhas.

De negativos é essencialmente isso, na minha opinião.

Outros pontos positivos!

Como as turmas são pequenas, os alunos têm contato próximo com os profesores, o que é bem incomum em universidades grandes como a USP. Os professores conhecem os alunos pelo rosto, e às vezes a gente realmente fica próximo, coisa de chamar pra jogar bola no final de semana. Isso, principalmente pra quem segue no meio acadêmico, significa que você tem contatos. Quando eu prestei para um doutorado fora, foi assim que eu consegui cartas de recomendação de professores da USP basicamente dizendo “O Chico é um ótimo aluno, pode confiar”. Não fossem essas cartas, duvido que eu seria aceito em Oxford para um doutorado, sem ter feito um mestrado.

E, é claro, a parte maravilhosa do Ciclo Avançado: a gente faz o que quer. É uma oportunidade única de montar um currículo do jeitinho que você quiser, pra te dar qualquer combinação de áreas. Onde mais que alguém iria estudar lógica matemática versus lógica do discurso, ou computação paralela com bioquímica estrutural? É esse tipo de coisa, sabe. Se você aproveita bem, você chega nessa hora de montar o currículo cheia de ideias legais, e aproveita de monte o curso. Vale muito a pena.

Resumindão, o curso é puxado, mas não é desumano, ele te dá uma habilidade valiosa de entender um monte de áreas, você pode voltar pro curso de origem quando quiser, mas também pode aproveitar pra mudar de área, tem contato próximo com os professores e isso é um trampolim pra você, e a gente faz o que quer no Ciclo Avançado.

Onde posso ler mais a respeito?

Se você já procurou informação a respeito do curso, imagino que você tenha visto o cecm.usp.br . Você olhou também a wiki.cecm.usp.br? A gente tem essa wiki sobre o curso, feita pelos próprios alunos, cheia de informação. Ah, e teve uma reportagem na superinteressante uns anos atrás.

Posso visitar o curso?

Eu não sei como tá no momento a estrutura física do curso (já trocaram de prédio, teve reforma, etc), mas o pessoal é muito acolhedor. Eles adorariam te falar do curso, te mostrar o lugar. E você pode até assistir alguma aula com o primeiro ou segundo ano, só pra sentir a dinâmica da sala!

Alem disso, em Junho costuma ter um evento na USP para divulgar o curso. Esse evento costuma ter vários alunos e ex-alunos, e é o lugar perfeito pra conversar com eles. Ah, e costuma ter comida de graça.

Por fim, um disclaimer:

Eu me formei em 2013, e escrevi a maior parte desse texto em 2015. Então algumas coisas com certeza devem ter mudado, mas se você tiver interesse em conversar com alunos atuais do curso, me manda uma mensagem que eu te ponho em contato com as turmas atuais. No mais, se você tiver mais alguma pergunta, é só falar!

By chicocamargo

Antidisciplinary scientist, avid storyteller.

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